Tarrafal no Passos Manuel

As pessoas subiam e desciam a rua de Passos Manuel em equipas de dois ou três. Amantes, amigos, companheiros ou suportáveis, eram estas as constituições das equipas. As lojas já estavam fechadas, tocava ainda um músico de rua no cruzamento com a rua de Santa Catarina. A banda sonora do artista dava um ambiente mais romântico à cidade, o que realçava ainda mais a minha jogada a solo. (Não tinha uma mão para apertar, nem um ouvido para ouvir qualquer coisa idiota que me tivesse vindo à cabeça.)

Com a lâmpada em forma de “U” a silvar, o letreiro néon do Coliseu aproximou-se. Passos Manuel apareceu escrito numa parede de chapa ondulada. Entrei. A rapariga da bilheteira era tão bonita (faltava aqui um pouco de romantismo à Pedro Mexia), o cinema já me tinha conquistado. Levantei o bilhete que tinha reservado. O ambiente lá dentro era bastante diferente de um outro qualquer bar, a começar pela música e a acabar na concentração excessiva de barbas, óculos e penteados ao estilo hipster.

Troquei olhares com outra rapariga que estava a por música. Vale muito a pena ir ver documentários portugueses. Com a minha pose mais intelectual possível agarrei-me ao balcão, pedi o fino e fiquei de olhos colados no programa do primeiro ciclo do Há Filmes na Baixa!

A sala de projecção é bastante confortável, por instantes parece que se entra para a sala de estar de alguém que ainda não temos muita confiança.

Tarrafal começa a ser projectado, não sem uma pequena introdução de realizador Pedro Neves.

Todo o documentário é um retrato do antigo bairro de São João de Deus, também apelidado de Tarrafal. Surge na memória a prisão Salazarista com o mesmo nome. Na narrativa do filme  é também referida esta relação como uma possível origem do apelido do bairro. Os “personagens” principais são antigos habitantes do bairro do Tarrafal, todas estas pessoas têm (pelo menos) uma característica que as distingue das demais. Apesar das diferentes etnias, idades e género todas elas guardavam com saudade os tempos do bairro, sendo que a droga, os crimes e os toxicodependentes não passavam de sombras omnipresentes. Faziam parte do normal, do dia-a-dia. O facto da morte e da degradação humana se ter tornado o normal para aquelas pessoas é bastante impressionante para mim.

Comoveu-me bastante uma cena em que um dos habitantes vai com a família a um sítio – onde agora é apenas um descampado – e relata toda a sua infância, onde era a escola, a cantina, a casa da senhora que tomava conta dele, a casa do tio, a mercearia e a estrada nova. Todos aqueles anos vividos naqueles poucos metros quadrados podem apenas ser revividos na sua memória, não sobrou nada físico e material daquelas memórias. Foi tudo reduzido a nada, descampado de erva verde com carreiros utilitários.

O filme é pautado por um cavaleiro montado num cavalo branco que usava calções desportivos. Parece quase um elemento de fantasia no meio daquela realidade tão dura e áspera. Talvez uma ponte com a própria história surreal do bairro. Edifícios construídos para serem demolidos passados 15 anos.

É inacreditável a vida que estas pessoas levam mesmo aqui ao lado. Mesmo aqui, numa cidade do ocidente europeu em pleno século XXI.

Espero ansiosamente por voltar a ver um filme do Pedro Neves, uma vez que este foi bastante bem conseguido e com uma fotografia bastante impressionante. Narrativa e narrações muito boas. Como retrato, o documentário funciona muito bem dando uma perspectiva muito ampla do bairro de São João de Deus (Tarrafal para os conhecidos).

Parece um bairro baptizado com ironia. São João de Deus não deve ter tido muito orgulho nesta sua posse.

Acabou assim esta minha jogada a solo. Metro. Casa. Amanhã há faculdade.